segunda-feira, 9 de novembro de 2009


Esperança em detrimento da experiência
         Seminarista Rafael de Oliveira Archetti


“Caminhante, as tuas pegadas são o caminho e nada mais...” (Antonio Machado, em Cantares).



        Cada vez que nossas relações humanas tomam ares mais profundos de convivên-cia particular, irremediavelmente nos lançamos numa tênue caminhada onde residem, lado a lado, a expectativa animada do nascimento de amizades indestrutíveis e a iminência de fracassos circunstanciais que nos lançam numa profunda situação de descon-tentamento com nossa capacidade incomparável de sempre fazer triunfar a esperança sobre a experiência. Isto nos torna fascinantes!
       Lançamo-nos com tanto afinco numa relação que sequer chegamos a lembrar que outrora fôramos infelizes pela incapacidade de compreensão de outrem a nosso respeito. É bem verdade que as feridas emocionais não se curam com o pernoite eficaz no tratamento de uma aguda dor de cabeça, por exemplo. E não raramente incitamos nossa proteção natural anti-sofrimento, como se pudéssemos sobreviver sem aquelas mazelas alheias que tanto nos assolam, não obstante, tornam-nos profundamente fortes para os passos cotidianos.
        A verdade é que somos profundamente egoístas, por mais que nossa luta diária possa residir exatamente na tentativa de minimizar nossas falhas tão alarmantes e na medida em que aquela indizível personalidade que ornara nosso caminhar afasta-se de nossa realidade, sofremos! Entretanto, isto se dá bem mais pela incapacidade de encon-trar sentido e objetivo naquilo que somos irremediavelmente forçados a executar, ainda que seja a mais singela e vital atividade, como o respirar, que pelo infortúnio de ser-nos retirado do convívio alguém tão expressivo, seja pelas desavenças inevitáveis, seja pela insofismável vocação humana à morte.
        E nesse dever de expectativas e frustradas constatações, somos inevitavelmente conduzidos à abominável teoria do preenchimento de nosso vazio existencial, mas sem-pre louvável quando considerada pelo ângulo da superação de nossas desventurosas relações inter humanas. Precisamos satisfazer nossa necessidade do convívio entre os nossos e, mesmo sabendo e experimentando que a presença de um acalenta a forte revolta pela ausência de outrem, somos impelidos pela censura à primeira vista de nossos sentidos a evitar aqueles que aparentam possuir as imperfeições que tanto odiamos em nós mesmos. Como se pudéssemos intuir tais concepções...
        Vemos tomar volume a lista daqueles que adquirem acesso às novas tecnologias, como a Internet, e neste “mundo de ninguém” lançam-se na iludida expectativa de en-contrar na personagem virtual que se apresenta um sincero e inseparável escudeiro. As relações humanas tenderam a resumir-se num encontro no qual a distância geográfica pouco importa, em real prejuízo ao tradicional e mais indicado “encontro olho-no-olho”.
         O ser humano não é uma ilha! Não podemos viver afastados de um meio que nos forme, nem de uma civilização, ainda que nem tanto civilizada, exatamente porque tais conceitos são gerados por aqueles que, alheios às diversas manifestações culturais, ainda são capazes de mensurar realidades diferentes tais quais fossem numa mesma medida.
          Somos errantes e seremos assim! Inevitavelmente... Dois dos grandes compositores brasileiros, numa de suas canções, assim dir-nos-iam: “Não somos perfeitos; ainda!” (Seres Humanos, de Roberto Carlos e Erasmo Carlos). E nessa incessante busca de perfeição, particular e também na pessoa do outro que se apresenta como companheiro de caminhada, deparamo-nos com os erros tão repudiados e precisamos aprender que na longa jornada o importante é considerar os acertos, como méritos daqueles que perseveram em seus objetivos, justamente porque ao permutarmos nossas interações huma-nas com o intuito de precaver-nos das lacunas que foram constatadas, lançamo-nos naquela falsa tranquilidade que nos remete a um eu ilusoriamente inatingível, pelo endeusamento de um caráter que é modelo apenas para o nosso fútil mundo egocêntrico.
          Abrir-se às interações sem medo de decepcionar-se é o clamor que ulula no âmago de nosso ser desde os primórdios deste planeta, quando até mesmo o relato bíblico da criação* faz-nos vislumbrar, seja em qual for a intensidade necessária, que só so-mos completamente felizes quando encontramos pessoas com quem compartilhar nossas experiências, felicidades e inevitáveis fracassos. É quando compartilhamos experiências que vemos que nossos sofrimentos podem ter valido a pena, mesmo que para outros mais que para nós!
             Outrora, a necessidade de interagir com os da mesma espécie era uma questão de sobrevivência, quando o bando possuía mais chance de sobressair-se na luta contra os predadores. Hoje, ainda, a sobrevivência é o objetivo, mesmo que noutros parâmetros...
         Buscamos pessoas verdadeiramente importantes, independente daquilo que so-mos ou precisaríamos conseguir ser! Para quem chorar ou sorrir não significará, em hipótese alguma, tentativa de persuasão; precisamente porque a estes não se faz mister provar nada. Com as quais confirmaríamos aquela máxima do filósofo Francis Bacon: “A amizade duplica as alegrias e divide as tristezas”.
            A isto sim vale a pena se lançar. Neste intuito as reservas naturais são desarma-das e a dualidade tênue supracitada recebe nosso incentivo e coragem objetivando experiências novas e indescritíveis; momentos em que a importância é medida não pela duração temporal de seus acontecimentos, mas sim pela intensidade destes; pois, como diria o poeta Antonio Machado, que epigrafou esta seção, “Caminhante, as tuas pegadas são o caminho e nada mais; Caminhante não há caminho, o caminho faz-se ao caminhar”
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* Referência ao texto contido em Gênesis 2, 20, onde se pode ler: “O homem pôs nomes a todos os animais, a todas as aves dos céus e a todos os animais dos campos; mas não se achava para ele uma ajuda que lhe fosse adequada”.
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Um comentário:

  1. Se todos os jovens tivessem o mesmo esforço e pensamento que você, o mundo seria melhor... Andar com Cristo no peito é fácil, mas ter peito pra carregar Jesus é difícil... Beijos!

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