A dimensão missionária familiar...
Rafael de Oliveira Archetti
“Família que reza unida, permanece unida” (Papa João Paulo II, na Carta Apostólica Rosarium Virginis Mariae).
Certamente esta frase do Servo de Deus, o Papa João Paulo II, de saudosa memória, é uma das mais contundentes e incisivas considerações que fizera acerca da família cristã. E sob muitos aspectos poder-se-ia discorrer sobre seu papel fundamental, na constituição da sociedade neste cotidiano cada vez mais iludido pela falsa impressão de que Deus não é mais necessário, e indiscutível importância na moldagem da índole dos membros que a compõem. No entanto, neste mês de outubro, mês das Missões, creio fazer-se mister que reflitamos sobre o caráter missionário que indissociavelmente liga-se à família, Igreja doméstica e sinal visível da presença divina a proteger-nos e guiar-nos.
Mencionar a formação familiar como presença de Deus em nossa marcha existencial pressupõe as condições necessárias para se definir este ou aquele grupo como família, de fato. Ora, o dicionário Aurélio define família em dois aspectos, dentre outros, muito interessantes, a saber: 1 – pessoas aparentadas que vivem, geralmente, na mesma casa, particularmente o pai, a mãe e os filhos; 2 – origem, ascendência. Para o primeiro, em especial, determinaríamos que as relações familiares baseiam-se, essencial-mente, no dia-a-dia dos lares cristãos. Para o segundo, contudo, o termo família assume uma abrangência muito maior, donde, como costumeiramente consideramos, os antepassados, vivos ou falecidos, estabelecem os parâmetros familiares, extrapolando os limites físicos residenciais, mas enraizados na herança do legado perpetuado através das gerações.
Assim, a família que nasce do Coração amoroso do Pai, na mútua aceitação dos nubentes, frentes a um ministro da Igreja, assume não somente a responsabilidade subentendida de cooperação, multiplicação e auto-proteção, imediatamente e nas futuras gerações, bem como se confirma, visivelmente, nas promessas realizadas aos pés do altar. Promessas de respeito, amor, fidelidade... E, ainda, uma promessa que talvez ultimamente esteja passando despercebida aos olhos dos noivos: aceitar e educar na fé os filhos que Deus lhes confiar! “A fecundidade do amor conjugal não se reduz só à procriação dos filhos, mas deve se estender à sua educação moral e à formação espiritual” (CIC 2221).
Nisto reside a dimensão missionária da família! Em ser, a exemplo da Família Sagrada de Nazaré, um lar santo onde a presença de Deus seja indubitavelmente observada e constatada. Ora, é promessa do Senhor acompanhar aqueles que com fé a Ele se dirigirem (“Eis que estou convosco todos os dias, até o fim do mundo” [Mt 28, 20b]) e, ainda mais, aqueles que em Seu nome se reunirem (“Porque onde dois ou três estão reunidos em meu nome, aí estou Eu no meio deles” [Lc 18, 20]). De fato, não se pode separar esta vocação de ser sacrário do Senhor da família que sob Seus cuidados se forma; e, do mesmo modo, o liame da dimensão missionária e família.
O Catecismo da Igreja Católica diz-nos que é próprio dos pais iniciarem seus filhos na fé: “Pela graça do sacramento do matrimônio, os pais receberam a responsabilidade e o privilégio de evangelizar os filhos. Por isso os iniciarão desde tenra idade nos mistérios da fé, da qual são para os filhos os ‘primeiros arautos’. Associá-los-ão desde a primeira infância à vida da Igreja. A experiência da vida em família pode alimentar
as disposições afetivas que por toda a vida constituirão autênticos preâmbulos e apoios de uma fé viva” (CIC 2225).
Ora, o que vemos, muito freqüentemente, é a terceirização de todos os passos da formação de nossas crianças, quando a instituição familiar reduz-se à mera reunião entre os provedores de recursos e seus dependentes. Vislumbramos a despreocupação com a formação delas, enquanto atribui-se a outrem a responsabilidade que compete aos pais. Desde a formação intelectual, para a qual os pais enviam seus rebentos esperando que a escola supra suas deficiências como educador e, não obstante, seja capaz de incutir neles princípios morais e éticos que, não raramente, os pais carecem de tempo para apresentar-lhos; como também a formação religiosa, donde observamos cada vez mais intensa a falta de base religiosa familiar nas crianças que são levadas à Catequese. Não muito tempo atrás o seio doméstico era responsável por ensinar as primeiras orações de nossa fé às crianças. Hoje é raro que isto aconteça... Infelizmente!
O Concílio Vaticano II, na Declaração Gravissimum educationis, sobre a educação cristã, afirma que “o papel dos pais na educação é tão importante que é quase impossível substituí-los” (GE 3). Os progenitores estão delegando seus direitos e devereis de pais a pessoas que, muitas vezes, nem sequer conhecem! A família cristã parece perder-se nas inquietudes de uma vida atribulada e que, cada vez mais, limita tempo para Deus. No mesmo número da referida Declaração ainda lê-se: “A família é a primeira escola das virtudes sociais de que as sociedades têm necessidade”.
A dimensão missionária inicia-se, incontestavelmente, no cuidado com aqueles que, sedentos pelo conhecimento de Deus, esperam em nossos lares pelas palavras capazes de levá-los a experimentar o incomensurável amor de Deus por nós. Como Santa Teresa de Jesus, virgem e Doutora da Igreja, dizia: “Se não tivermos e não procurarmos a paz em nossa casa, não a encontraremos na alheia”.
Precisamos resgatar a bendita prática de reunir-se em família para render graças a Deus pelos dons recebidos... Suplicar a bênção de Deus sobre os alimentos... Cear juntos... Rezar... Apresentar ao Pai, unidos em oração, as intenções em comum... Ler a Bíblia... Instruir os pequeninos com exemplos, bem mais eloquentes que as palavras!
Roguemos ao Bom Deus que nos cumule de bênçãos, por intercessão da Sagrada Família, louvando-o pela honra de ter-nos dado Jesus nascido numa família humana, a fim de que gozasse das docilidades e asperezas de uma família. Enfim, subam-Lhe nossas orações pelas palavras do Ritual de Bênçãos de nossa Igreja: “Nós Vos bendizemos, Senhor, que, na Vossa infinita misericórdia, quisestes que o vosso Filho, feito homem, fizesse parte duma família humana, crescendo no ambiente da intimidade doméstica e conhecendo as suas preocupações e alegrias. Humildemente Vos pedimos, Senhor: guardai e protegei nossas famílias, para que, fortalecidas pela vossa graça, gozem de prosperidade, vivam na concórdia e, como Igreja doméstica, sejam no mundo testemunha da Vossa glória”. *
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* Adaptada da Oração de Bênção da Família; Ritual Romano de Bênçãos, P. 27, nº 58 – G. C. [Gráfica de Coimbra] / Conferência Episcopal Portuguesa.
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